sábado, 17 de abril de 2010

O que vc faria????


Recebi este texto da Marilena Degelo, do blog arquitetando da Casa e Jardim e resolvi postar aqui!
Muito tocante!!!!


O que você faria...
...se só lhe restasse esse dia?



CRISTIANE SEGATTO
Repórter especial da revista ÉPOCA.
Escreve sobre medicina há 14 anos e
já recebeu 10 prêmios de jornalismo.



Um dia desses, minha filha Bia apareceu com uma brincadeira nova. Era
um daqueles passatempos despretensiosos que nos levam a refletir sobre
coisas muito profundas. Filosóficas mesmo. Cada participante devia
escrever num papel a frase: “O que você faria se...”. E prosseguir
completando-a. Por exemplo: O que você faria... se a noite virasse
dia?

Quando cada um completa a pergunta (sem respondê-la), as folhas são
embaralhadas. Cada pessoa pega uma folha escrita por outra. E responde
a pergunta proposta ali. A parte mais divertida vem em seguida. Em voz
alta, faço minha pergunta: “O que você faria se a noite virasse dia?”.
A pessoa ao lado lê a resposta que está na folha dela e que,
obviamente, não tem relação com a pergunta que ouviu de mim. O
resultado fica mais ou menos assim:
– O que você faria se a noite virasse dia?
– Colocava minhas pantufas e pegava uma carona no trenó do Papai Noel.

O resultado é quase sempre assim. Nonsense. Outra vezes, conseguimos
perceber sentido naquilo que aparentemente não faz sentido. É uma
delícia. Preciso me policiar para não lançar, em toda noite, a mesma
pergunta. Sou obcecada por ela: “O que você faria se só lhe restasse
esse dia?” Graças à essa brincadeira descobri uma feliz coincidência: eu e
Dante, meu marido, faríamos exatamente a mesma coisa. Iríamos à
praia. Ao lado das pessoas que amamos, esperaríamos a morte de frente
para o mar.

Para mim, o mar sempre teve um caráter de excepcionalidade. Como não
temos praia na capital paulista, pisar na areia não é um evento banal.
É um prêmio por bom comportamento. O direito de sentir cada grãozinho
de areia tem de ser conquistado. O mar é para ser degustado. Com
reverência. Nos melhores momentos da minha vida, o mar esteve
presente. De uma forma ou de outra. Se eu tiver o privilégio de poder
escolher onde morrer é lá que quero estar.

Acho que esse sentimento é compartilhado por muitas pessoas que têm
consciência do fim da vida. Lembro de pelo menos três personalidades
que quiseram ver o mar antes de morrer: o ex-governador de São Paulo
Mario Covas, o cantor Cazuza e o jornalista francês Jean-Dominic
Bauby, cuja história foi lindamente retratada no filme O Escafandro e
a Borboleta.

Andei refletindo bastante sobre a morte nas últimas duas semanas. Tive
duas ótimas conversas com o geriatra Franklin Santana Santos, um dos
poucos brasileiros integralmente dedicados à pesquisa e à educação
sobre a morte e o morrer. Escrevi sobre ele nesta coluna na semana
passada. O que ouvi dele vai ficar guardado em mim para sempre. Se
você quiser saber mais sobre o assunto, recomendo os livros dele. Os
mais recentes são A arte de morrer: visões plurais (Editora Comenius)
e Cuidados Paliativos: Discutindo a Vida, a Morte e o Morrer (Editora
Atheneu).

Ser um doente terminal é, de certa forma, um privilégio. Quem sabe que
vai morrer tem a chance de se cercar das pessoas amadas, de dividir
com elas suas angústias sobre a morte. Espero ter a chance de dizer à
minha filha que estou partindo. Não quero levantar para pegar meu
texto na impressora e despencar no meio da redação. Nem sair cedo para
fazer uma matéria e nunca mais voltar.

Quem sabe que vai morrer tem tempo de resolver questões materiais, de
acertar pendências emocionais. Pode rever as pessoas que fizeram
diferença na sua vida e dizer: “Olha, preciso te dizer que você foi
muito importante e te agradecer por tudo o que fez por mim”.

Tenho tentado fazer isso hoje mesmo. Amanhã pode ser tarde demais. Por
que esperar meus últimos dias para reconhecer a importância das
pessoas que me fizeram tanto bem? E se eu não tiver últimos dias?

Franklin chamou minha atenção para o fato de que precisamos botar em
prática hoje aquilo que achamos que vamos valorizar no fim da vida. Se
nos seus últimos dias o importante para você seria passar mais tempo
com sua família, passe mais tempo com ela hoje.

É preciso estabelecer o que é fundamental na sua vida e colocar cada
coisa em seu lugar. Anda trabalhando demais? OK. Bem-vindo ao clube
das formiguinhas. Mas por que você trabalha tanto? Por que o trabalho
lhe realiza e lhe dá prazer? Ou por que pretende ficar rico?

Se o trabalho é apenas um meio para pagar suas contas, coloque-o no
seu devido lugar. Dedique-se a ele, mas não deixe que ele sugue sua
vida. Se ele o impede de se dedicar à coisa mais importante da sua
existência, algo está muito errado na sua escala de prioridades.

Chegar ao fim da vida com a sensação de que ela foi bem vivida nos
ajuda a ter uma boa morte. Não importa se você acredita em Deus ou
não. Se sua vida teve um propósito, se ela fez sentido para você,
muito provavelmente você morrerá em paz. “Quem vive bem, morre bem”,
diz Franklin.

Espero poder chegar ao fim da vida com a sensação que tenho hoje.
Sentindo que chorei, que sorri, que aprendi, que melhorei, que
construí. E que, principalmente, não me arrependo de nada. Pensei
nisso enquanto ouvia Cássia Eller, que morreu de repente e faz uma
falta danada. Escrevi esta coluna ouvindo sua interpretração
maravilhosa da música Non, je ne regrette rien, muito conhecida na voz
de Edith Piaf. Ouça Cássia aqui, conte-me o que sentiu e responda: o
que você faria se só lhe restasse esse dia?"



"Non, Je Ne Regrette Rien - Edith Piaf
(tradução)

Não, Eu Não Lamento Nada
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
nem o bem que me fez
nem a dor, tudo isso me é indiferente

não, nada de nada
não, eu não lamento nada
está pago, varrido, esquecido
eu me lixo para o passado

com minhas recordações
eu acendi o fogo
minhas aflições, meus prazeres
eu não preciso mais deles

varridos meus amores
com seus tremores
varridos para sempre]
Eu recomeço do zero

Não, Eu Não Lamento Nada
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
nem o bem que me fez
nem a dor, tudo isso me é indiferente

não, nada de nada
não, eu não lamento nada
porque minha vida, minhas alegrias
para hoje
começam com você"

Obrigada Marilena!!!!

2 comentários:

  1. Adorei!!! Ficou muito melhor o texto em seu blog com o link para o show de Cássia Eller e com a letra da música traduzida. Viva!!!
    Bjs e obrigada a vc.

    ResponderExcluir
  2. Adorei o texto! Lindo, né???
    Vamos valorizar as coisas certas!!!!
    bjs

    ResponderExcluir

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